Gustave Vauthier escreveu, mesmo durante sua viagem ao Brasil. até seu falecimento em Ponta Grossa (PR), quase semanalmente cartas a seu pai ou mãe vivendo em Bruxelas, com exceção durante a Primeira Guerra mundial (1914-1918) quando não houve serviço de correio entre o Brasil e a Europa. Essas cartas foram guardadas e encontram-se na Casa Guidoux, em Bagé (RS). Ele sempre escreveu em francês. A tradução foi feita com inteligência artificial.
Suas cartas e anotações revelam não apenas aspectos técnicos de seu trabalho, mas também observações sobre a sociedade brasileira, o ambiente político e sua própria integração na vida local.
25.01.1891 – A bordo do navio Merthe (rumo ao Rio de Janeiro)
Hoje chegamos a Lisboa.
30.01.1891 – A bordo do Merthe
O grupo com o qual convivo mais é naturalmente o dos engenheiros. Sem falar do sr. LeKeu, temos todos mais ou menos a mesma idade, entre 27 e 38 anos, e para a maioria de nós esta não é a primeira viagem. Chegaremos ao Rio, onde o sr. Soares nos espera. Provavelmente chegaremos no dia 10 do próximo mês.
09.02.1891 – A bordo do Merthe
Impressões de uma curta visita a Pernambuco (Recife) e à Bahia (Salvador).
13.02.1891 – Rio de Janeiro
No próximo domingo partiremos todos juntos para Paranaguá e, de lá, para Ponta Grossa. O sr. Soares deseja que eu assume a direção deste serviço, isto é, os estudos da seção do Paraná. Fomos também visitar o sr. d’Anethan, ministro da Bélgica em Petrópolis.
20.02.1891 – Curitiba
Impressões sobre São Paulo e os paulistas, “com suas ideias separatistas do Norte do Brasil”; observações sobre Curitiba e a ferrovia Paranaguá–Curitiba; sobre as araucárias. Comentários sobre LeKeu, que tem sempre dúvidas e se deixa influenciar facilmente. Encontrou Paul David, diretor da Companhia de Estradas de Ferro do Paraná, e Cerjat, engenheiro-chefe das obras de prolongamento dessa ferrovia.
01.03.1891 – Ponta Grossa
Primeiras impressões da cidade. Faremos levantamentos em duas direções: para Santa Maria e para Itararé. Estou aprendendo a montar: cavalgo diariamente durante cinco ou seis horas, a cavalo ou em mula. Espero estar completamente curado das febres. O transporte entre Ponta Grossa e Curitiba é frequente, feito por grandes carroções puxados por cavalos ou bois. A vida custa muito mais no Brasil do que na Bélgica.
Meu título é: Engenheiro-chefe dos Estudos das Estradas de Ferro do Sudoeste Brasileiro, em Ponta Grossa, Estado do Paraná.
23.03.1891 – Ponta Grossa
Temos instrumentos muito superiores aos usados no Brasil. São realmente muito aperfeiçoados, mas os operadores não estão à altura deles. O vale do Pitangui é muito encaixado e sinuoso, sendo difícil determinar à primeira vista o melhor traçado para a ferrovia.
16.04.1891 – Acampamento do Pitangui
Talvez eu deixe Ponta Grossa dentro de três ou quatro meses para ir a Santa Maria. Observações sobre os trabalhadores.
02.05.1891 – Ponta Grossa
LeKeu deixará o Rio no dia 10 de maio para retornar a Bruxelas. O inverno se aproxima.
07.05.1891 – Ponta Grossa
Na própria cidade de Ponta Grossa tenho muitas oportunidades de falar alemão, mas no interior das matas o português é a única língua compreendida.
24.05.1891 – Ponta Grossa
Dificuldades para enviar dinheiro à Europa, devido à falta de bancos e às taxas elevadas.
07.06.1891 – Ponta Grossa
Sobre seu futuro trabalho em Santa Maria: ele seria apenas o representante de Soares nas obras. Cerjat é o engenheiro-chefe da linha em construção de Curitiba a Ponta Grossa. A seção de Santa Maria a Cruz Alta tem 225 km e atravessa, em grande parte, um terreno difícil e caro. Deixará Ponta Grossa sem grandes saudades.
06.07.1891 – Ponta Grossa
A monotonia da sua vida mudou quando conheceu uma jovem brasileira. Reflete sobre a possibilidade de se casar no Brasil caso surja oportunidade. Conheceu a jovem, senhorita Ribas, em uma festa na semana anterior. Tem cerca de 17 anos. Conhece o pai dela, amigo do sr. Soares. Pensa nas duas hipóteses: casar no Brasil ou esperar voltar a Bruxelas em três anos.
24.07.1891 – Ponta Grossa
Retoma o assunto da jovem que conheceu dois meses antes e que lhe agrada muito. Está disposto a casar-se com ela.
02.08.1891 – Ponta Grossa
O casamento agora está decidido. Dá informações sobre sua situação financeira e sobre a família Ribas (Auguste Ribas e sua esposa, com sete filhos). Data prevista do casamento: 25 de setembro (depois fixada em 26). Menciona as formalidades e documentos necessários.
27.08.1891 – Ponta Grossa
Entra na vida conjugal sem preocupações financeiras e muito feliz, amando cada dia mais sua noiva.
(Foto-cartão do casamento; os pais eram contra o casamento.)
03.12.1891 – Santa Maria
M. Vanderperre, chefe da contabilidade, está lá com sua esposa e uma filha de 16 anos, que deverá casar-se com Cambier, um dos agentes que partiram da Europa junto com ele. Cambier foi encarregado de alugar a casa e comprar o mobiliário do casal. Há também menção a uma caixa de lúpulo trazida da Europa; o consumo de cerveja é grande no sul do Brasil.
10.12.1891 – Santa Maria
Observações sobre o trabalho e sobre a falta de aprovação do governo. Comparações entre Santa Maria e Ponta Grossa. Desenho da planta da casa.
05.01.1892 – Santa Maria
Observações sobre os habitantes do Rio Grande do Sul e sobre a política de Assis Brasil.
29.02.1892 – Santa Maria
Comentário sobre a viagem de LeKeu e sobre a crise econômica; pede que na Europa não falem mal do Brasil.
28.05.1892
Uma caixa de lúpulo chegou a Porto Alegre.
27.07.1892
No mês de janeiro seguinte a família aumentará com o nascimento de um filho ou filha Ribas-Vauthier. Pede que enviem livros para o endereço de Chaves Campello, despachante em Rio Grande.
22.08.1892
Pede ao pai que apresente o sr. Soares, durante sua visita a Bruxelas, a Jules Urban, Finet e de Lavelye. Gustave preparou um relatório.
27.08.1892
O empreiteiro geral da União Industrial fez uma proposta: construção de 41 km difíceis antes do rio Uruguai e de uma ponte de 400 metros sobre o rio. Ele ainda não aceitou nem recusou. Depende de garantias financeiras (1/5 do capital, cerca de 400.000 francos belgas). Pede ao pai e a René que verifiquem o interesse em Bruxelas. Engenheiros são raros no Rio Grande, e o dinheiro também.
07.11.1892
Lutas e revoluções nos arredores de Cruz Alta. O país é frequentemente perturbado e mal administrado no interior. A Bélgica não tem representação consular efetiva em Porto Alegre; apenas o chefe de uma casa alemã, sr. Lüdewitz.
13.01.1893
A União Industrial cedeu sua rede ferroviária e criou uma nova companhia: Chemins de fer San-Paul – Rio Grande, presidida por Soares.
28.01.1893
Nasceu Suzanne.
24.02.1893
Gustave torna-se representante provisório da companhia para a seção Cruz Alta – Uruguai (390 km), prolongamento da linha do Sudoeste Brasileiro.
15.04.1893
Nomeado inspetor das obras da linha Cruz Alta – Uruguai, com gratificação mensal de 500 mil-réis.
14.05.1893
Chegada de Nonnenberg, engenheiro-chefe das linhas secundárias, que inspeciona as obras.
08.06.1893
Comentário sobre uma viagem com Nonnenberg, que lhe causou ótima impressão.
[há ainda muitas outras cartas]
....
1906
Cabeçalho: Estrada de Ferro Southern Brazilian – Rio Grande do Sul
Gabinete do Diretor Geral.
5.3.1911
Desde que sou diretor da estrada de ferro, nunca tive tanto que fazer como durante estas últimas semanas...
... convidados do Sr. Farquhar.
22.3.1911
Por minha carta precedente, sabes que a Auxiliaire foi completamente absorvida pela Brazil Railway, companhia fundada e dirigida pelo Sr. Farquhar...
Para a indústria belga, a perda será sensível, pois todo o novo material e todo o equipamento serão, de preferência, comprados nos Estados Unidos.
09.06.1911
Há oito dias estou em São Paulo, onde está instalado o escritório central da Brazil Railway...
Dentro de poucos dias estarei de volta a Santa Maria.
28.06.1911
Hélène está noiva do doutor Albert de Souza, 25 anos.
1.8.1911
Os americanos, que dirigem a Auxiliaire, introduziram várias mudanças em nossa organização; suprimiram, notadamente, muitos empregados.
Marcel [Guidoux] perdeu seu posto. Ele era o secretário do chefe do tráfego, o qual também foi demitido.
Marcel não procurará mais emprego; interessar-se-á por um negócio que meu cunhado Manoel Ribas vai montar no Paraná.
19.05.1912
Nascimento de Charles Guidoux.
14.08.1912
Uma peste eclodiu em Santa Maria...
Os Secondaires jamais quiseram ver, em sua rede brasileira, senão uma vasta estrada de ferro vicinal e pretendiam dirigi-la segundo os princípios seguidos nos pequenos bondes a vapor dos arredores de Bruxelas.
O Sr. Farquhar quer, ao contrário, aplicar aqui – porém pouco a pouco – os métodos seguidos nas maiores redes americanas.
Fundindo diferentes redes, ele quer tornar possível o transporte de mercadorias de pequeno valor em distâncias de 1.800 a 2.000 km.
Em Bruxelas sempre me trataram de oportunista e de outras coisas ainda. A realidade, entretanto, sempre superou minhas expectativas.
2.10.1912
Desde que não sou mais o diretor efetivo da estrada de ferro, mas apenas o representante da Auxiliaire, viajo muito...
Graças ao Sr. Farquhar, a Auxiliaire faz parte hoje de um grupo de estradas de ferro que conta entre os mais importantes do mundo.
11.12.1912
Obtive, do general comandante do Rio Grande, a transferência de Alberto para Porto Alegre.
Iremos nos instalar lá por volta do fim do mês...
94, Rua da Independência, em Porto Alegre.
10.01.1914
A rede da Brazil Railway compreende a Auxiliaire e três outras estradas de ferro do Paraná e de São Paulo.
Os interesses mais importantes estão em São Paulo, onde foi instalada a direção-geral.
Minhas funções são, portanto, representar os interesses da Companhia Auxiliaire, defender seus direitos e lutar constantemente contra o arbítrio e as exigências dos engenheiros de fiscalização.
Minha vantagem é conhecer os negócios da companhia desde sua fundação, ao passo que os engenheiros do governo apenas passam, nunca estão completamente a par e nem sempre têm coragem de estudar a fundo as questões que lhes são submetidas.
Há momentos em que lamento não ter estudado direito...
Nossa rede não está terminada; para que cubra todo o Rio Grande, seria preciso duplicá-la, acrescentando-lhe mais de 2.000 km.
O governo decidiu a construção.
19.01.1914
Crise financeira.
31.03.1914
Nascimento de Robert, filho de Hélène.
05.07.1914
Apesar da crise... as receitas do primeiro semestre de 1914 [da Auxiliaire] são sensivelmente iguais às do ano passado.
04.07.1914
Dentro de um ano e alguns meses completarei meu 25º ano de serviço numa companhia que mudou três vezes de nome, mas que no fundo permaneceu sempre a mesma: Sud-Ouest Brésiliens, Auxiliaire e Brazil Railway.
[Ainda há muitas cartas]
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Gustave-Charles Vauthier nasceu no dia 11 de janeiro de 1861 em Bruxelas (Bélgica) e faleceu no dia 5 de abril de 1923 em Ponta Grossa (Paraná).

